Diretor da Escola de Design, Comunição e Artes do ISEC, em Lisboa, professor e investigador, Pedro Oliveira considera que a profissão de designer não é devidamente reconhecida em Portugal. Em entrevista à La Prensa, Pedro Oliveira defende que é hora de as empresas gráficas integrarem designers nos seus quadros para sobreviverem num mercado que já não se alimenta de grandes tiragens mas sim da oferta de produtos diferenciados.
Entrevista: Pedro Oliveira

Licenciado em Design de Equipamento pela FBAUL em 1988, Mestre em Design pela Domus Academy de Milão em 2000 e Doutorado pela FAUTL em 2012, Pedro Oliveira é docente do ensino superior desde 2004, tendo lecionado três anos na ESTAL e, desde 2006, no ISEC (www.isec.universitas.pt). É atualmente o diretor da Escola de Design, Comunicação e Artes do ISEC, bem como o coordenador da Licenciatura em Design e Produção Gráfica e da Pós-Graduação em Design de Embalagem. Desde 2012 que leciona como docente convidado no Mestrado em Design de Interiores da ESART – IPCB (www.ipcb.pt / ESART). É ainda colaborador do Centro de Investigação em Aquitectura, Urbanismo e Design da FAUTL e do Centro de Estudos e Investigação Aplicados do ISEC, tendo como principais áreas de investigação atuais o Design de Embalagem e os Novos Materiais.

Há quanto tempo está na Escola de Design, Comunicação e Artes do ISEC?

Iniciei a minha colaboração com o ISEC em março de 2005, para lecionar na disciplina de Design de Embalagem. Mais tarde comecei também a lecionar as disciplinas de Introdução ao Design Gráfico e de Desenho Técnico. Há cerca de quatro anos fiquei ainda responsável pela coordenação da Licenciatura em Design e Produção Gráfica. Em setembro de 2009 fui convidado para subdiretor da Escola de Design e Artes Gráficas do ISEC e, a partir de outubro de 2011, passei a ocupar- me da direção da escola, que mudou também de nome, passando a designar-se de ESCALAD (Escola de Design, Comunicação e Artes).

A escola tem promovido um crescimento sustentado no curso de primeiro ciclo, procurando adequá-lo à realidade social e industrial envolvente. Esta estratégia tem possibilitado, apesar das naturais oscilações de mercado e de contexto macroeconómico, um crescimento progressivo do número de alunos do curso. Recordo-me que a turma a que eu dava aulas, quando cheguei ao ISEC, era constituída por apenas 6 alunos. Hoje, só no último ano do curso, temos praticamente o quíntuplo dos alunos inscritos.

Que evoluções tem verificado nos últimos anos?

A evolução da “componente humana”, no que concerne o corpo docente tem-se traduzido num significativo aumento do número de docentes em investigação. Observo uma tendência progressiva à profissionalização da função docente no ensino superior. No meu tempo de aluno de licenciatura o mais comum era termos docentes que acumulavam a atividade profissional com a docência, o que tinha alguns reflexos, em alguns casos até na falta de assiduidade dos docentes às aulas. Hoje em dia, assistimos a um número cada vez maior de docentes/investigadores exclusivamente ligados à academia. Apesar de esta dedicação dos docentes acarretar inegáveis vantagens para a evolução do conhecimento académico e para o acompanhamento de proximidade com os estudantes, também não é menos verdade que poderá levar, em algumas áreas, a um desfasamento perante a realidade do mercado de trabalho. Esta fragilidade parece- me poder vir a ocorrer sobretudo no ensino universitário, pois o ensino politécnico ainda tem uma aberta para tolerar a contratação de docentes “especialistas”, que não seguem uma carreira académica “tradicional” mas antes uma atividade profissional.

A evolução da componente tecnológica, em termos de equipamentos e processos, assim como da realidade de consumo tem sido avassaladora. O crescimento da impressão digital, o web-to-print e a migração de produtos impressos para uma existência maioritária em plataformas e suportes virtuais (basta pensar nos jornais ou na fotografia “caseira”), tem levado a grandes revoluções no mercado, inclusive na estrutura dos cursos. Algo a que felizmente temos estado atentos no ISEC e a responder.

Considera que o sector das artes gráficas tem vindo a chamar, cada vez mais, a atenção dos jovens?

Pelo contrário, verifico que o sector, por via da sua menor pujança económica, tem sentido um menor entusiasmo por parte dos jovens. Isto passa-se, em parte, porque os jovens têm a expectativa de que a obtenção de um qualquer diploma, por si só, seja garantia de um bom emprego futuro. Esse tempo acabou! O que não quer dizer que a formação não seja um investimento sensato. E sobretudo a formação em Licenciaturas e Mestrados, que hoje em dia se fazem no mesmo tempo que antes se fazia uma licenciatura. Entendo que a formação de primeiro ciclo deve ser abrangente. Esse é o motivo pelo qual a licenciatura que temos não é apenas em artes gráficas mas sim em Design e Produção Gráfica, entendida no sentido lato como aquilo que abrange o produto impresso mas também a publicação digital. Os nossos licenciados têm duas saídas profissionais bem distintas e estão, como poucos, aptos a estabelecer o diálogo proveitoso entre a área criativa e a tecnológica que, tantas vezes, vemos dialogarem mal.
O facto de a maioria dos clientes pedir outputs dos trabalhos para diversas plataformas e suportes, a par do crescimento do web-to-print irá fazer com que no futuro o profissional responsável pela área do pré-media seja altamente valorizado! É por isso uma área em que vale muito a pena investir, e os nossos alunos estão no pelotão da frente para responder com competência a esse desafio.

Como classifica a qualidade do ensino na área de artes gráficas, em Portugal?

Penso que a qualidade existente é boa mas que está, lamentavelmente, a diminuir em termos de oferta. O facto de ser uma área de ensino que implica elevados custos a nível de maquinaria e consumíveis tem tornado difícil, para algumas escolas, sustentar a existência destes cursos. O ISEC é, ao nível do ensino superior, a única escola de Lisboa a ter um curso que prepara alunos com uma elevado grau de conhecimento sobre a indústria gráfica. Isto faz com que, naturalmente, tenhamos no nosso campus uma Oficina Gráfica equipada com equipamento de pré-impressão, de impressão offset, serigrafia, digital e algum equipamento de acabamento (corte e vinco). Também temos protocolos com empresas externas ao campus para complementar a formação dos alunos, em equipamentos que não possuímos.

Qualquer escola que se pretenda atualizada a nível da formação em artes gráficas tem que promover uma forte ligação com as empresas em seu redor. Só através delas poderá facilitar aos seus alunos o contacto com a multiplicidade de tecnologias sector e de know-how atualizado. Por outro lado, devido ao facto de vários dos nossos docentes serem também profissionais das artes gráficas, nomeadamente pré-impressores, impressores e gestores de produção gráfica, possibilita a necessária atualidade de conhecimentos que é transmitida aos alunos.

Embora nos últimos anos se verifique uma menor tendência neste sentido, a área da formação sempre foi muito criticada por muitos empresários gráficos, segundo os quais os profissionais, nomeadamente os designers, “não entendem nada” sobre como o trabalho se aplica em termos práticos. Qual a sua opinião sobre esta matéria?

É sabido que muitas das escolas que formam designers acabam por menosprezar a importância da componente técnica na formação dos futuros profissionais criativos. Basta olhar para a estrutura da maioria dos cursos para se nos afigurar óbvia essa realidade. Não é por isso de surpreender que possam, paradoxalmente, licenciar designers que não sabem sequer preparar artes finais ou, no limite, nem sequer sabem a diferença entre uma imagem em CMYK e RGB ou qual a resolução que esta necessita para impressão, uma situação que já se me deparou em ex-alunos de algumas escolas de design até com renome.

A atual pressão que a A3ES (Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior) coloca sobre a qualificação académica do corpo docente afeto ao ensino superior, sobretudo do subsistema universitário, e da sua dedicação integral à escola, tenderá a promover o afastamento dos docentes do mercado de trabalho. Como se pode esperar que um docente tenha conhecimentos atualizados sobre a área profissional que ensina se não a exercer? O subsistema politécnico, ao qual o ISEC pertence, tem a vantagem, ao contrário do universitário, de poder integrar nos seus quadros docentes a quem seja reconhecido a qualidade de Especialistas – um título que, para efeitos dos rácios da A3ES equivale ao de um doutorado mas que se adequa para os docentes que têm um reconhecido mérito na sua área profissional.

É por isso minha convicção que a barreira entre o que a escola ensina e o que o mercado de trabalho precisa, nomeadamente em áreas tecnológicas como as artes gráficas, será certamente menor em cursos pertencentes a escolas do subsistema politécnico, como o ISEC.