Inicialmente criado por dois designers gráficos, o Clube dos Tipos, nasceu em Coimbra, a partir de uma forte ligação que Joana Monteiro, distinguida este ano com o Prémio Sebastião Rodrigues, sentia pela tipografia tradicional.
Foi em Londres que a jovem designer gráfica teve o primeiro contacto com esta técnica artesanal de impressão, enquanto estudou no Royal College of Arts e, mais tarde, no Camberwell College of Art.
Quando Joana voltou para Coimbra, em 2011, rapidamente procurou formas de conciliar o design e a sua paixão pelos tipos e pelas prensas. “Visitei o Rui, na Tipografia Damasceno, para lhe propor o desafio de tirar o pó aos tipos. Aguardei pela vinda do Paul Hardman para Portugal e juntos fizemos nascer o Clube dos Tipos”, conta. Joana acabou, posteriormente, por assumir na totalidade a gestão do projeto, após Paul ter avançado com o seu próprio projeto. “O Clube dos Tipos é uma invenção não formalizada. Não existe legalmente. É uma marca minha que uso de forma livre quando me convém. Essa liberdade tem o preço da ilegibilidade a qualquer tipo de apoios. Assim espero continuar. Livre”, sublinha a designer.
Lançado oficialmente na Experimenta Design 2013, em Lisboa, o projeto assumese, antes de mais, como um clube de tipografia, do qual resultam projetos comerciais, ou de iniciativa própria, que organiza também workshops e eventos. Um dos objetivos do projeto passa por se tornar numa “rede de designers, impressores e artistas que trabalham com tipografia. É nossa intenção encontrar oficinas em Portugal que tenham o potencial para serem acedidas abertamente e de forma colaborativa, criando assim um diretório de recursos”, explica Joana Monteiro.
WORKSHOPS DE TIPOGRAFIA
Uma das atividades principais do Clube consiste na organização de workshops de tipografia tradicional. “Consideramos que os workshops são úteis para estudantes de tipografia, amantes dos tipos, e qualquer pessoa interessada em impressão. As nossas expectativas foram, no entanto, superadas quanto à resposta e aderência aos eventos criados”, afirma.
A emblemática Tipografia Damasceno é o espaço de eleição para a realização dos encontros. “Apenas aqui temos todo o material necessário para a correta aprendizagem da técnica. Nestes workshops é dada uma pequena introdução teórica, que fazemos acompanhar de uma ficha de termos básicos. Explicamos aos participantes os diferentes passos associados à técnica: composição, imposição, impressão, desimposição e distribuição. Quando adequado, levamos alguns livros com exemplos que consideramos interessantes para o enriquecimento da cultura visual dos alunos”, explica a designer gráfica.
Joana Monteiro considera que o facto de estar localizado no centro do país em nada prejudica este projeto. “Tenho tentado criar uma rede de tipografias abertas a este tipo de workshops, que tenham o material necessário e que estejam dispostas a colaborar, e não tem sido uma busca feliz pelo país. Sem o Rui, e sem o reconhecimento que já tenho em Coimbra, não me parece que o projeto tivesse tanto sucesso”, sublinha.
Recentemente, Joana Monteiro lançou um novo projeto, a Editora dos Tipos, nascida da “necessidade de publicar”. “Quero ter um manual de tipografia que possa ser facilmente consultado num contexto de workshop, por exemplo. Das colaborações que tenho feito vão surgindo projetos que faz sentido publicar. É uma forma de agrupar e contextualizar uma série de trabalhos que estão na iminência de surgir, associados à tipografia”, explica.
Sónia Pinheiro
Joana Monteiro recebeu, este ano, o Prémio Sebastião Rodrigues, integrado nos Prémios do Ano do Design Português. Licenciada em Pintura e Design de Comunicação, na ARCA, em Coimbra, fez o mestrado em Design Gráfico, na University of the Arts London, e estudou na Royal College of Art, também em Londres, onde experimentou vídeo e tipografia tradicional.
Atualmente, trabalha como freelancer e faz direção de arte. No seu trabalho, para além da tipografia, utiliza várias técnicas para construção de imagens gráficas. “A minha formação é bastante diversificada. Desde o liceu que vou acumulando técnicas que me vão sendo úteis, dependendo dos projetos que tenho em mãos. Uso os instrumentos sem lhes conferir ordem hierárquica ou importância”, explica. “Acima de tudo, o que me agrada na tipografia é a ideia da fisicalidade, do que esta me permite em termos de criação e do desenvolvimento de trabalhos mais plásticos. Nem sempre me fiquei pelo uso da técnica de forma tradicional. Também recorro à fotografia e ao vídeo para trabalhar com os tipos”, afirma.